“Se custar a sua paz, está caro demais”
Viviane Schultz é escritora, autora do livro Parto no Mato, empreendedora e mãe solo. Mulher forte e autêntica, enfrentou um relacionamento abusivo e transformou sua dor em propósito. Hoje, divide sua história de superação, fé e autoconhecimento para inspirar outras mulheres a se libertarem do que as oprime e se colocarem em primeiro lugar. Mãe de Ravi e Gael, acredita que o amor-próprio é o ponto de partida para uma vida plena. Seu lema é simples e poderoso: “Se custar a sua paz, está caro demais.”
A seguir entrevista concedida à Luciana Tani para a Revista A Hora da Verdade sobre a vida e a jornada de Viviane Schultz.
Viviane, como você se apresentaria para quem ainda não te conhece?
Viviane Schultz é mulher de raízes.
Sou autora do livro Parto no Mato, uma obra que nasce da minha própria travessia .
Um relato real e corajoso sobre parir na natureza, sem romantizar, mas também sem esconder a força que existe no corpo e na alma de uma mulher.
Tive recomeços difíceis, por perdas, por reconstrução… e principalmente, por libertação.
Escrevo para tocar, para despertar, para lembrar:
o feminino é potência, é instinto, é verdade.
Hoje, mais do que autora, me vejo como um canal.
Um canal de histórias que precisam ser contadas.
De mulheres que precisam ser ouvidas.
“Inclusive, divido essa obra com mulheres muito especiais que cruzaram o meu caminho.
Cada relato carrega uma história… e em cada uma delas, existe um pedaço de mim também.”
Fale um pouco sobre a experiência de ser mãe solo e como é a sua rotina com Ravi e Gael.
Somos a equipe Faísca: Fogo (Vivi), Raio (Ravi) e Espalha Brasa (Gael).
Essa foi uma forma que encontrei de encurtar as rédeas para que eles me obedecessem já que eu estava sozinha com eles em todos os lugares. Foi uma forma de conseguir ter controle sobre eles, principalmente em local publico que eu precisava que eles estivem perto de mim, como uma equipe, sempre juntos. E foi ótimo, funcional e divertido também. Trouxe mais leveza para a rotina diária.
Ser mãe solo é um desafio diário, mas também uma grande força que descobri em mim.
Com o Ravi e o Gael, minha rotina é intensa: cuido, trabalho, educo e estou presente em tudo. Nem sempre é fácil, mas o amor sustenta e dá direção.
Nossa relação é de muita parceria e verdade.
Minha maternidade não é perfeita — é real, com cansaço, riso e muito amor.
E é por eles que sigo, forte e em movimento todos os dias.
Como foi o processo de transformar a dor em propósito? O que isso significou para você?
Encarar minhas feridas foi muito doloroso, mas extremamente necessário.
A escrita foi o caminho para organizar o caos que estava vivendo e transformar sentimento em voz. Isso significou deixar de apenas sobreviver e passar a viver com consciência — usando minha história para tocar, acolher e fortalecer a mim mesma e outras mulheres.
Sobre o relacionamento abusivo e superação
Como foi para você perceber que estava vivendo um relacionamento abusivo?
Perceber que eu estava em um relacionamento abusivo não foi um estalo — foi um processo lento, silencioso e doloroso.
Eu estava tão mergulhada em agressões psicológicas, que já não sabia mais o que era normal.
O narcisista não agride de forma evidente — ele constrói, com uma precisão assustadora, uma realidade onde você passa a acreditar que a culpa é sempre sua.
E quando você percebe… já está se questionando mais do que deveria, se diminuindo mais do que merece, e se perdendo de si mesma…”
Até que perdi o meu amor próprio!
“Hoje, estudando um pouco sobre o que vivi, descobri alguns termos na psicologia: manipulação emocional, inversão de culpa e até o chamado gaslighting — quando o outro distorce a realidade a ponto de você acreditar que está exagerando, errada ou até ‘louca’.”
“O momento de consciência não veio de uma vez.
Foi quando minha irmã chegou à minha casa e disse que eu não poderia continuar vivendo daquela forma.
Ela fez minhas malas, praticamente me pegou no colo, pegou meus filhos e, de fato, me arrancou daquele pesadelo.
No dia seguinte, me levou ao psiquiatra.
O despertar veio aos poucos…
Foi quando comecei a tomar os medicamentos que consegui, gradualmente, enxergar padrões, questionar situações e, principalmente, me escutar.
Foi difícil aceitar.
Porque, quando a gente ama, também resiste em enxergar.”
Mas entender isso foi libertador.
Foi o primeiro passo para me escolher, me reconstruir e retomar a minha força.
Quais foram os maiores desafios para sair dessa situação e recomeçar?
Os maiores desafios foram internos e externos.
Foi vencer o medo, porque sair de uma relação de 12 anos de casamento, onde construímos um futuro juntos, morávamos no trabalho e trabalhávamos juntos. a dúvida e a sensação de incapacidade.
Sair de casa pra mim, não era só sair de casa, era sair do meu trabalho, meu lar e deixar um patrimônio que foi construído juntos por 12 anos.
Reencontrar minha força depois de tanto tempo me sentindo diminuída exigiu coragem diária.
Externamente, vieram as responsabilidades: recomeçar praticamente do zero, cuidar dos meus filhos, organizar a vida financeira e emocional Graças a Deus a minha família me ajudou muito.
Mas, acima de tudo, o maior desafio foi me escolher —
e sustentar essa escolha todos os dias.
Recomeçar doeu, mas também me reconstruiu.
O que você diria para uma mulher que está passando por isso hoje e sente medo ou dificuldade de sair?
Eu diria, com todo o coração:
Você não está sozinha. Deus está contigo!
“Não espere a coragem chegar ou o medo ir embora — porque, muitas vezes, isso não acontece. A mudança começa dentro de você.
Quando eu saí, me sentia perdida, sem expectativas e com muito medo. Não foi fácil. Mas Deus foi colocando pessoas no meu caminho.
Hoje, faz 3 anos que saí de casa. E, olhando para trás, vejo que foi a melhor decisão da minha vida.
Porque permanecer onde dói, onde te diminui ou te confunde, custa muito mais do que a coragem de sair.
Conquistei minha casa — de aluguel, mas é minha. Conquistei meus móveis, minha liberdade… e, todas as noites, tenho paz e alegria ao lado dos meus filhos.
Ver meus filhos sorrirem, livres, não tem preço.”
Você não precisa dar um salto enorme de uma vez — comece com um passo.
Um limite. Uma conversa. Um pedido de ajuda.
Você merece paz.
Merece clareza.
Merece um amor que não te faça duvidar de si mesma.
Só não desiste de você!
Como a fé e o autoconhecimento foram fundamentais nesse processo de cura?
A fé me lembrou que existe algo maior me guiando, mesmo quando eu não conseguia entender o caminho.
Foi ela que me deu força nos dias em que eu estava fraca, que acalmou meu coração quando tudo parecia desmoronar.
A fé me ensinou a confiar… a esperar… e a acreditar que havia um propósito até na dor.
Sabe quando vem aquele choro desesperador? Pois é!
A fé me sustentou.
O que te motivou a escrever o livro “Parto no Mato e Outros Relatos?”
O que me motivou a escrever Parto no Mato e Outros Relatos foi, antes de tudo, a necessidade de não me calar.
A minha vivência foi intensa, transformadora — e, em muitos momentos, solitária. Eu percebi que existiam muitas histórias como a minha, mas que quase não eram contadas.
Escrever esse livro foi uma forma de dar voz a tudo isso.
De transformar experiência em palavra.
E palavra em libertação.
Também escrevi porque senti que precisava romper com a idéia romantizada do parto. Mostrar o que ninguém mostra. Falar do que muitas sentem, mas não dizem. Trazer verdade — mesmo quando ela é desconfortável.
E, além da minha própria história, me movia algo maior:
o desejo de registrar saberes que vêm da terra, do corpo, das mulheres mais antigas… saberes que estão se perdendo com o tempo.
Esse livro nasceu como um grito —
mas também como um abraço.
Um grito por verdade.
Um abraço para quem precisa se reconhecer, se fortalecer e entender que não está sozinha.
Sobre o Parto e a Natureza
O título “Parto no Mato” chama muita atenção! Como foi essa experiência única?
Foi Deus que me deu o título.
Por que você escolheu esse tipo de parto e o que ele representou de libertação para você?
“Eu não escolhi esse tipo de parto apenas por ser ‘diferente’.
Eu escolhi, antes de tudo, porque tinha muito medo da dor do parto e das violências obstétricas — que ainda são muito comuns — justamente porque tiraram a protagonista da história, que é a mulher.”
“Antigamente, apenas Deus e a parteira estavam ali para conduzir um parto complicado.
Hoje, o ser humano muitas vezes tenta substituir todo esse conhecimento ancestral.
Mas por que não unir os dois?
Por que não fazer uma junção entre o antigo e o novo — entre a sabedoria da tradição e os avanços da medicina?”
Ali, no meio do mato, eu entendi que meu corpo sabia o que fazer.
Minha avó teve 22 filhos na roça, porque eu não teria também?
Foi libertador porque eu deixei de pedir permissão.
Eu assumi o protagonismo da minha própria história.
E quando meu filho nasceu…
não foi só ele que veio ao mundo.
Eu também nasci de novo.
Na sua visão, como o parto pode ser um momento de empoderamento feminino?
É o momento que a mulher deixa de ser conduzida e passa a ser protagonista da própria experiência.
Porque o parto não é só físico… ele é emocional, espiritual e ancestral.
É ali que a mulher se encontra com uma força que muitas vezes ela nem sabia que existia. Cada contração pode ser vivida não como sofrimento, mas como potência — como um corpo que sabe exatamente o que está fazendo.
O empoderamento acontece quando:
-
a mulher é ouvida e respeitada
-
pode confiar no próprio corpo
-
não é silenciada, apressada ou controlada
Quando isso acontece, o parto deixa de ser um momento de medo… e se torna um rito de passagem.
Um portal.
Ali, a mulher acessa algo muito profundo — uma força instintiva, quase selvagem, que a reconecta com outras mulheres que vieram antes dela. É como se ela dissesse: “eu posso, eu sei, eu sou capaz.”
Sobre Amor Próprio e Empoderamento
Seu lema é: “Se custar a sua paz, está caro demais.” Como você chegou a essa conclusão?
Eu não cheguei a essa frase por teoria… eu cheguei por vivência.
Durante muito tempo, eu aceitei situações, relações e ambientes que me custavam caro — mas não no dinheiro… na minha paz. E no começo, a gente nem percebe. Vai se adaptando, se silenciando, relevando… achando que faz parte, que é normal, que vai melhorar.
Mas a conta chega. Fiquei doente, tive paralisia facial, fiquei com depressão profunda, cheguei a 45 kg e síndrome do pânico.
Chega no corpo cansado, na mente confusa, no coração apertado. Chega quando você já não se reconhece mais. E foi nesse ponto que eu entendi: não existe nada mais valioso do que a paz.
Porque sem paz, você perde sua clareza.
Sem paz, você perde sua força.
Sem paz, você se perde de si.
Eu precisei me reconstruir. Fazer escolhas difíceis. Me afastar de pessoas, de situações, de versões minhas que já não cabiam mais.
E aí ficou muito claro pra mim:
Se algo me tira a paz, está me custando caro demais — mesmo que pareça confortável, mesmo que seja conhecido, mesmo que doa sair.
Hoje, eu escolho o que me traz leveza, verdade e liberdade.
E essa frase virou mais do que um lema… virou um filtro pra minha vida.
Na sua opinião, por que é tão importante as mulheres se colocarem em primeiro lugar?
Na minha opinião, colocar-se em primeiro lugar não é egoísmo… é sobrevivência emocional, física e espiritual. É saudável dessa forma até por que, como vc vai cuidar de alguém se você não está bem?
A gente foi ensinada a cuidar de tudo e de todos — filhos, casa, relações — e, muitas vezes, a se deixar por último. Mas uma mulher que vive se abandonando, aos poucos, deixa de existir dentro de si.
Se colocar em primeiro lugar é um ato de consciência.
É dizer: “eu também importo.”
Isso deveria ser ensinado nas escolas.
Amor próprio, relacionamento, respeito, vivencia e comunicação.
Porque quando a mulher está bem:
-
ela cuida melhor dos filhos
-
ela se posiciona com mais clareza
-
ela não aceita menos do que merece
-
ela ensina, pelo exemplo, o seu próprio valor
Não é sobre passar por cima de ninguém…
é sobre não passar por cima de si mesma.
Eu aprendi que, quando eu me escolho, eu não estou tirando de ninguém — eu estou fortalecendo tudo ao meu redor.
Uma mulher inteira constrói relações mais saudáveis.
Uma mulher que se respeita ensina o mundo a respeitá-la.
E, no fundo, é simples:
Se você não se coloca em primeiro lugar, alguém vai te colocar por último.
Quais dicas você daria para quem está buscando mais amor-próprio e autoestima?
Buscar amor-próprio não é sobre se sentir bem o tempo todo… é sobre aprender a não se abandonar, mesmo nos dias difíceis.
Se eu pudesse dar algumas dicas, seriam essas — simples, mas profundas:
-
Comece se ouvindo de verdade
Pare de ignorar o que você sente. Sua dor, seu cansaço, sua intuição… tudo isso tem algo a te dizer.
-
Aprenda a dizer “não” sem culpa
Cada “não” que você diz para o outro, muitas vezes é um “sim” para você.
-
Se afaste do que te diminui
Ambientes, relações, situações… se te tiram a paz, te tiram de você.
-
Cuide de você como cuidaria de alguém que ama
Fale com você com carinho. Tenha paciência com seus processos. Você merece esse cuidado.
-
Pare de se comparar
Sua história é única. Seu tempo é único. Comparação só gera escassez.
-
Reconheça sua própria força
Você já superou coisas que um dia achou que não conseguiria. Honre isso.
-
Busque autoconhecimento
Terapia, espiritualidade, escrita… qualquer caminho que te aproxime de quem você realmente é.
E, talvez a mais importante:
Amor-próprio não nasce pronto. Ele é construído nas escolhas diárias.
Como você lida com as críticas ou julgamentos por ter escolhas de vida tão diferentes?
Eu entendi, com o tempo, que quem julga, julga a partir do que conhece — e não do que eu vivi.
Minhas escolhas são diferentes porque minha história também foi.
E nem todo mundo vai entender… e está tudo bem. Crítica construtiva eu escuto.
Julgamento eu deixo passar.
Sobre o Futuro e Mensagem Final
Escrever um livro é um grande passo. Quais são os seus próximos projetos e sonhos?
Tenho o sonho de transformar tudo isso em algo maior:
um movimento de escuta, acolhimento e fortalecimento feminino.
E, no fundo, meu maior sonho não é só crescer…
é impactar.
Se cada passo que eu der conseguir tocar, acolher ou despertar uma mulher…
então eu já estou exatamente onde eu deveria estar.
O que você espera que as mulheres levem como lição depois de ler o seu livro?
Eu espero, de verdade, que cada mulher que leia Parto no Mato termine o livro se sentindo mais próxima de si mesma.
Não é sobre querer que todas escolham o mesmo caminho que eu escolhi…
é sobre que elas sintam que têm escolha.
Que levem como lição que:
-
o corpo delas é sábio
-
a intuição delas merece ser ouvida
-
elas não precisam se encaixar em padrões que as silenciam
Mas, acima de tudo, eu espero que elas se reconheçam na própria força.
Que entendam que mesmo nos momentos mais difíceis, existe uma potência ali dentro — esperando para ser acessada.
Porque no fundo, a maior mensagem que eu quero deixar é:
Você não precisa pedir permissão para ser quem você é.
Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário
Se você pudesse deixar uma mensagem para a “Você” do passado, o que diria?
Um dia vai olhar pra trás com orgulho da mulher que se tornou.
Uma mensagem para as mulheres
Não se esqueçam de vocês.
No meio de tantas responsabilidades, cobranças e expectativas… não se abandonem. A sua voz importa. O seu sentir importa. A sua intuição não está errada.
Você não precisa ser perfeita.
Você não precisa dar conta de tudo.
Mas precisa, acima de tudo, ser fiel a si mesma.
Se algo te machuca, olhe pra isso.
Se algo te diminui, questione.
Se algo te tira a paz… tenha coragem de soltar.
Existe uma força dentro de você que talvez o mundo tenha tentado calar —
mas ela ainda está aí.
E quando você se reconecta com essa força…
você não só transforma a sua vida,
você transforma tudo ao seu redor.
Então se escolha.
Se respeite.
Se escute.
E nunca mais duvide da mulher que você é.
Como as pessoas podem encontrar o seu trabalho e entrar em contato com você?
O meu principal canal é o Instagram, onde estou mais presente e acessível.
Por lá, é possível acompanhar conteúdos, lançamentos, eventos e também entrar em contato direto comigo.
https://www.amazon.com.br/Parto-Mato-Entre-Outros-Relatos-ebook/dp/B0DZWCH83M
O que você escreveria na sua lapide?
Quer que eu volte?
Assista entrevista completa da autora Viviane Schultz no Podcast Estrelas Inspiradoras da Luciana Tani na ZY3 Rádio e TV em São José dos Campos – SP. Acesse. Clique no link abaixo:
Contatos:
https://www.instagram.com/p/DPt04CEEeQr/?igsh=MTNjemFoamluNjVzeQ==
Edição: Roberto Matias
Entrevista: Luciana Tani
Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação.
RECORDANDO…









