Enzo: da UTI ao lar, uma história de amor e superação
David e Priscila ao lado do pequeno Enzo, que foi para casa após um ano no hospital e ganhou uma nova família – Foto: PMSJC.
Depois de mais de um ano de internação, o pequeno Enzo finalmente deixou o Hospital Municipal Dr. José de Carvalho Florence, em São José dos Campos, nesta segunda-feira (4).
A alta médica marca o início de um novo capítulo na vida do menino, que desde o nascimento enfrentou uma jornada intensa de desafios — e que agora segue cercado de cuidado, afeto e esperança.
Enzo nasceu prematuro extremo, com apenas 25 semanas de gestação e 742 gramas, em março de 2025. Desde os primeiros minutos de vida, precisou de suporte intensivo. Diagnosticado com fenda palatina, lábio leporino e outras anomalias que comprometem a respiração e a alimentação, ele passou os primeiros quatro meses internado na UTI Neonatal. Depois, seguiu em cuidados contínuos na enfermaria da Pediatria.
A história de superação do menino, no entanto, é também marcada por um abandono precoce. Pouco tempo após o nascimento, os pais biológicos decidiram se afastar, alegando não ter condições de cuidar dele. Foi nesse cenário delicado que surgiu um vínculo capaz de transformar destinos.
Desde os primeiros dias de internação, o enfermeiro coordenador da Pediatria, David Ribeiro, se aproximou de Enzo. O que começou como cuidado profissional rapidamente se tornou algo maior.
“Ele ficou sem ninguém e isso me comoveu. Aos poucos esse amor foi só aumentando, uma coisa inexplicável”, relembra.

Na despedida do hospital, colegas de David festejam a alta de Enzo | Foto: PMSJC.
Pedido de guarda
O sentimento foi tão forte que, em novembro do ano passado, David decidiu entrar com um pedido de guarda na Justiça. O processo ganhou agilidade após a concordância dos pais biológicos, e a guarda provisória — válida por 180 dias — foi concedida na semana passada, praticamente ao mesmo tempo em que veio a tão esperada alta hospitalar.
Para receber o menino em casa, David e a esposa, Priscila, também enfermeira, precisaram comprovar que tinham condições de oferecer todos os cuidados necessários. O casal preparou não apenas um quarto infantil, mas uma verdadeira estrutura de atendimento domiciliar.
“Decoramos um quarto de criança e montamos uma enfermaria em casa, com todo o suporte necessário. O Enzo ainda precisa, por exemplo, de oxigênio”, explica David, que trabalha há 13 anos no hospital e também é professor universitário.
A decisão impactou profundamente a rotina da família. Priscila optou por deixar o emprego para se dedicar integralmente ao cuidado do menino.
“Peguei amor por essa criança como nunca me apeguei em todos esses anos de trabalho. Ele é como um filho para mim”, afirma David.

Corredor de aplausos, com bexigas, celebrando a alta do pequeno Enzo | Foto: PMSJC.
Tudo tem um propósito
Para Priscila, o vínculo com Enzo começou de forma inesperada, durante uma visita de estágio ao hospital. “Foi algo incrível, não tem explicação. Sempre sonhei em ser mãe, e quando conheci o Enzo, senti que havia um propósito”, conta emocionada.
Mesmo com o sentimento evidente, a decisão de assumir a guarda não foi imediata. O casal refletiu sobre os desafios — especialmente relacionados à saúde delicada da criança — até que um momento marcante trouxe a certeza.
“Pedi a Deus um sinal, e ele veio de uma forma surpreendente, através de um encontro com uma desconhecida. Foi algo sobrenatural. Em janeiro, decidimos seguir com esse propósito. O amor prevaleceu”, afirma.
Dias antes da alta, Enzo ainda enfrentou uma intercorrência que agravou temporariamente seu quadro de saúde. Mas, para o casal, isso apenas reforçou a decisão de seguir em frente.
“É um quadro que exige atenção, mas vamos buscar apoio dos melhores profissionais. Nosso objetivo é que, no futuro, ele tenha autonomia, consiga se alimentar sozinho, tomar banho, ter independência”, diz Priscila.
Hoje, com 1 ano e 1 mês, Enzo deixa o ambiente hospitalar que foi sua casa desde o nascimento para começar uma nova vida — agora, em um lar cheio de amor.
Cientes de que o caminho será longo e desafiador, David e Priscila não pensam em desistir. “Foi um encontro de almas. Nossos corações se encontraram”, resume a enfermeira Priscila.
Na despedida, um momento emocionante: profissionais do hospital formaram um corredor de aplausos, com bexigas, celebrando a alta e o início dessa nova fase cheia de esperança.



