Proteger também é compreender
Ciência, responsabilidade e um novo olhar sobre a proteção dos cães.
É difícil encontrar alguém que não queira proteger o próprio cão.
Nas últimas décadas, a relação entre seres humanos e cães mudou profundamente. Eles deixaram de ocupar apenas espaços externos das casas e passaram a integrar a rotina e a vida afetiva das famílias. Paralelamente, cresceu a preocupação da sociedade com o combate aos maus-tratos, a guarda responsável e a promoção do bem-estar animal.
Essa transformação representa uma conquista.
No entanto, ela também nos convida a refletir sobre uma pergunta que raramente fazemos:
Será que proteger um cão ou atender as necessidades dele implica somente em colocá-lo dentro de casa e dar carinho?
A resposta pela ciência é mais complexa
O conceito contemporâneo de bem-estar animal não se limita à ausência de sofrimento físico. Ele considera também a saúde emocional, a possibilidade de expressar comportamentos naturais, a qualidade do ambiente e das interações sociais, além da condição física e nutricional do animal.
Em outras palavras, proteger um cão significa compreender quem ele realmente é.
Apesar de viverem dentro de nossas casas, os cães continuam sendo cães.
Eles possuem necessidades biológicas e comportamentais próprias.
Explorar ambientes, movimentar-se, resolver problemas, brincar, aprender e comunicar-se fazem parte do repertório natural da espécie.
Quando essas necessidades deixam de ser atendidas, podem surgir dificuldades frequentemente interpretadas como “problemas de comportamento”, quando, na realidade, podem representar medo, ansiedade, frustração, privação comportamental ou dificuldades de adaptação ao ambiente em que vivem.
Por isso, conhecer a espécie também é uma forma de proteção.
Da mesma maneira que não esperamos que um cavalo viva como um gato ou que uma cobra possua as mesmas necessidades de um coelho, não podemos esperar que os cães se adaptem completamente às expectativas humanas sem considerar sua biologia.
Respeitar essas características não reduz o vínculo entre pessoas e animais.
Ao contrário.
É justamente esse conhecimento que permite oferecer uma vida mais saudável e compatível com aquilo de que o cão realmente necessita.
O amor é indispensável. Mas amor sem conhecimento pode produzir consequências que jamais foram desejadas.
Talvez o exemplo mais evidente seja a obesidade.
Hoje segundo a WSAVA (World Small Animal Veterinary Association) a obesidade é considerada um dos principais problemas de saúde da população canina mundial. Ela está associada ao aumento da incidência de osteoartrite, doenças ortopédicas, diabetes mellitus, alterações respiratórias, complicações anestésicas e redução da expectativa e da qualidade de vida.
Ainda assim, não é raro encontrarmos cães obesos sendo vistos apenas como “fofos” ou “bem tratados”.
Esse cenário demonstra que boas intenções, por si só, não garantem bem-estar.
O mesmo raciocínio vale para o comportamento.
Grande parte dos problemas comportamentais poderia ser minimizada por meio de orientação precoce, manejo adequado, socialização responsável e educação dos próprios donos.
É nesse contexto que o trabalho do adestrador merece uma reflexão mais ampla.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, seu papel não consiste apenas em ensinar comandos.
O adestramento responsável é, antes de tudo, uma ferramenta de prevenção.
Prevenção de acidentes.
Prevenção de mordidas.
Prevenção de abandonos.
Prevenção de conflitos entre cães e pessoas.
Prevenção de situações que comprometem o bem-estar animal e a segurança da coletividade.
Essa atuação possui, inclusive, reflexos jurídicos.
O artigo 936 do Código Civil estabelece que o dono (responsável legal) ou o detentor do animal responde pelos danos por ele causados, ressalvadas as hipóteses previstas em lei.
Sob essa perspectiva, educação, manejo adequado e orientação profissional não representam apenas escolhas individuais.
São instrumentos concretos de prevenção de acidentes, redução de riscos e promoção da convivência responsável.
Entretanto, existe um paradoxo.
Embora o comportamento animal tenha impacto direto sobre saúde, segurança pública e qualidade de vida, o Brasil ainda não possui regulamentação nacional para a profissão de adestrador.
Essa ausência de regulamentação dificulta que a sociedade diferencie profissionais que investem anos em formação técnica daqueles que atuam sem qualquer preparo científico.
Mais do que reconhecer uma profissão, discutir sua regulamentação significa debater critérios mínimos de qualificação, responsabilidade ética, atualização profissional e segurança para os próprios animais, seus donos e toda a sociedade.
Ao mesmo tempo, também é importante reconhecer que a proteção animal não será construída pela polarização.
Nem médicos-veterinários.
Nem adestradores.
Nem pesquisadores.
Nem protetores.
Nem o poder público conseguirão promover mudanças significativas atuando de forma isolada.
O verdadeiro avanço acontece quando essas áreas trabalham juntas, orientadas pela ciência e por um objetivo comum.
Talvez tenha chegado o momento de ampliarmos também nosso conceito de proteção.
Proteger um cão não significa apenas impedir que ele seja vítima de violência.
Significa compreender sua espécie.
Promover saúde.
Prevenir doenças.
Estimular comportamentos naturais.
Educar pessoas.
Valorizar profissionais comprometidos com conhecimento técnico.
E construir uma convivência mais segura entre animais e sociedade.
Mais do que defender categorias profissionais, este artigo convida à construção de uma cultura baseada em responsabilidade compartilhada.
Porque o bem-estar animal não depende apenas do quanto amamos os cães.
Depende, sobretudo, do quanto estamos dispostos a compreendê-los.
Hewie (foto), chegou ao treinamento apresentando agressão social intensa, com histórico de mordidas em familiares e profissionais. Diante da gravidade do quadro, a eutanásia já era considerada como uma possibilidade.
Sua reabilitação foi construída por meio de uma abordagem multidisciplinar, integrando adestramento comportamental, acompanhamento veterinário com terapia canabinoide prescrita e alimentação natural crua, sempre respeitando as necessidades biológicas e comportamentais da espécie.
Hoje, sua história demonstra que casos complexos exigem responsabilidade, conhecimento científico e atuação integrada entre diferentes profissionais.
Meu agradecimento à família do Hewie pela confiança e pelo comprometimento durante todo o processo de reabilitação. Agradeço também ao Dr. Gustavo Luiz, médico-veterinário neurologista responsável pelo acompanhamento clínico, e à Dra. Eduarda Kuhn, médica-veterinária responsável pelo planejamento nutricional. O resultado alcançado é fruto de um trabalho conjunto em prol da qualidade de vida e do bem-estar do Hewie.
Fundamentação Científica
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Nota
Este artigo tem como objetivo estimular um diálogo baseado em evidências entre donos, médicos-veterinários, adestradores, pesquisadores, juristas e gestores públicos.
A proteção efetiva dos cães depende da integração entre ciência, educação e responsabilidade.


